Separação

Miguel lambeu meus pés e abanou o rabo. Estava, claramente, jogando sujo para que eu pedisse a sua guarda. 

Lá fomos nós - eu e o Labrador - para a kitinete de 24m2, que aluguei perto do trabalho.

Vivíamos bem, mesmo quando nos esbarrávamos, irritados.

No início, sentimos um pouco de falta do pai dele, mas depois de algumas horas já estávamos desfrutando da paz que meias, uma xícara de café, uma cama macia e a Netflix nos trazem.

Foi o primeiro fim de semana, depois de muitos anos, que desmarcamos o salão e o petshop. Nossos primeiros atos contra o sistema.

Miguel dormia ao meu lado, no tapete, e eu era a dona suprema, rainha de todas as galáxias, única senhora e soberana do controle remoto.

O próximo intruso que lute.

Estrogonofes e Compliance

Deixei as chaves na mesinha da sala. 
Arrastei a mala até o elevador.
Cumprimentei pela última vez o Seu Antônio, porteiro da manhã, que recebia todas as minhas encomendas:
— Opa! Mais uma para a senhora! – Dizia, sempre forjando um sorrisinho maldoso.
Eu odiava o Seu Antônio.
Merda, ainda tenho uns pacotes para receber e não dá para mandar o boy lá da firma buscar, porque isso seria altamente antiético, né?
Tem o Compliance e tals…
Vou pedir para o João buscar entre uma entrega e outra da empresa. — Das vantagens de trabalhar no Compliance.
Depois me confesso com o Padre Eliseu, que é amigo da mamãe.
Aliás, tenho que avisar a ela que vou voltar para casa.
Espero que ela faça estrogonofe para comemorar.
Era para ser um dia triste.
Deixa eu me concentrar para chorar um pouquinho.
Só uma lágrima está bom.
— Oi, João! E aí? Beleza? Pega um lance pra mim quando tiver na rota?
— Já é!
Pronto. Resolvido.
— Bom dia, meninas! E aí? Novidades?
— Senta aí porque você não vai acreditar!
Cecília me provou que uma boa fofoca é bem mais saudável que alguns relacionamentos.
Mamãe fez estrogonofe.

Lua que míngua

As ondas querem casar com a praia, 
Mas a lua sempre atrapalha.
Quando não aguentam mais de paixão,
As ondas se erguem em ressaca,
Tomam a praia em seus braços,
E ensinam para a lua
O que é ser maré cheia.

Bolinhos e vinganças

Cinco da manhã as janelas acordam.
Milhares de olhos de gatos brilhando no escuro.
Minha janela não acorda, prefiro cachorros:
Tem um roncando na minha cama.
Ai meu Deus! Tem a call com o cara da China!
Mas ainda tem o cachorro na minha cama.
E a ressaca.
Escova os dentes, corre, trânsito, o chefe insuportável.
Só eu falo mandarim, por isso ele me engole.
Café no carro e um bolinho do Bob Esponja.
Gosto desses bolinhos cheios de açúcar e recheio delicioso-artificial.
O trânsito não anda.
Cinco minutos para a call.
Mando áudio para o chefe.
Só eu falo mandarim.
Buzina.
Um palavrão aqui, outro ali.
O motoboy do aplicativo quase arranca meu retrovisor.
Quem pede comida às 7h da manhã?
Alguém de ressaca que não gosta de bolinho do Bob Esponja.
Dez minutos atrasada.
CLT me salva!?
A call ainda não começou:
Só eu falo mandarim.
Cara feia do chefe insuportável.
Ressaca minha.
— Duì nu qǐ! (Desculpe em mandarim)
Completei na sequência, em mandarim:
— Meu chefe atrasou.
Só eu falo mandarim.
Vingancinhas corporativas…
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